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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Dia do Basta – a primavera tupiniquim


Nos últimos meses, o mundo vem assistindo a uma quantidade nunca antes vista de protestos. O movimento que começou na Tunísia foi denominado de Primavera Árabe se alastrou pelos países árabes pedindo mais democracia e liberdade.
Entretanto, paralelo a isto, houve o recrudescimento da crise nos países desenvolvidos, principalmente na Europa. Isto fez com que o povo saísse às ruas, com maior rigor e violência nos países mais afetados pela crise, como Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (apelidados de PIIGS um anagrama que dá quase a palavra “porcos”em inglês), mas aqui não tanto pedindo democracia, mas sim, melhorias na economia.
Finalmente, o mais recente é o movimento Occupy (Ocupe) Wall Street, desta vez mais genérico, que protesta principalmente contra o sistema financeiro americano e também por questões relativas a emprego e demais fatores econômicos.
No Brasil a situação é diferente. Nossas instituições democráticas não estão em risco e a situação econômica é bem mais confortável do que nos países desenvolvidos. Porém, a corrupção no Brasil, que sempre foi mais ou menos endêmica, está chegando a níveis insustentáveis, com escândalos periódicos e que, por incrível que pareça, deixaram de chocar a população, afinal, não é mais “o escândalo” e sim, apenas mais um escândalo que será esquecido rapidamente, pois haverá um próximo logo.
E, para piorar o problema brasileiro, isto não é fruto de um partido ou de um político. O caso brasileiro é endêmico, ou seja, a corrupção não tem partidos e não tem bandeiras e não se restringe a políticos eleitos, mas também a assessores, ministros, secretários etc.
Mas, começamos a ver uma luz no fim do túnel. Diversas cidades brasileiras estão organizando, para o próximo dia 15, feriado de Proclamação da República, o Dia do Basta, uma série de passeatas contra a corrupção brasileira. Este movimento, fortemente baseado nas redes sociais, é totalmente não partidário, o que mostra que, talvez pela primeira vez em anos, a mobilização pública esteja partindo da sociedade e não dos partidos políticos.
Na cidade de Blumenau, o dia do Basta será realizado as 17horas na Rua XV de Novembro, começando na praça do Biergarten (com concentração a partir das 15hrs) e terminando na prefeitura. Os temas a serem levantados e protestados serão, em nível nacional, corrupção como crime hediondo, voto aberto no congresso, constitucionalidade da ficha limpa, ENEM, pensões vitalícias de ex-governadores e 10% do PIB para a educação. Já a nível regional, serão levantados temas como  inércia na recuperação dos desastres de 2008, prestação de contas do dinheiro das enchentes, BR-470, privatização do esgoto, fraudes nas aposentadorias da Alesc, e reforço sobre baixo salários dos professores, fraudes da merenda escolar, licitações fraudulentas de remédios.
Finalmente, no sábado, dia 12 haverá uma manifestação chamada corruptódromo, na escadaria da igreja matriz com a encenação de alguns corruptos conhecidos, para chamar o público para o evento do dia 15. Vale a pena prestigiar e participar.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Caos, protestos e liberdades individuais


Hoje (12/08/11) saiu um artigo muito lúcido de Moisés Naím, com tradução de Clara Allain, na Folha de São Paulo (assinantes do UOL ou da Folha de São Paulo podem ler a matéria completa aqui), onde ele cita a seguinte frase:
"Nas últimas semanas, ruas e praças foram tomadas por milhares de pessoas que protestam contra o governo. Em alguns lugares, os protestos se tornaram muito violentos". Depois ele pede para descobrir qual o país onde isto aconteceu, citando Azerbaijão, Chile, China, Espanha, Filipinas, Grécia, Indonésia, Israel, Portugal, Reino Unido, Rússia, Tailândia, além de Bahrein, Egito, Jordânia, Marrocos, Líbia, Síria, Tunísia e Iêmen, entre outros. E a resposta singela é: EM TODOS.
Então, eu resolvi ir além e garimpar algumas frases interessantes:
"Tratam-se de criminosos comuns que agiram com selvageria esta noite"
"Algumas lojas foram atacadas por grupos de jovens que se uniram e parecem determinados a provocar desordens"
"Não há dúvidas de que faremos tudo que for necessário para restaurar a ordem nas ruas"
"Eles sentirão todo o peso da lei"
Quem disse estas frases?
a) Algum ditador do Oriente Médio afirmando que apenas bandidos saem as ruas e que a repressão é a melhor saída?
b) Os dirigentes britânicos que afirmam que, nos outros países as manifestações são legítimas, a favor da democracia etc etc etc e que apenas lá na Inglaterra são vândalos?
Bem, se você marcou a letra B, está correto. Estranho este tipo de comportamento, não? Ou será que, contra manifestação é mais fácil colocar a culpa nos manifestantes do que olhar para dentro e analisar o que está efetivamente errado? A propósito, estas frases foram tiradas em reportagem do UOL, disponível aqui.
Ah, e apenas um detalhe. Ainda segundo a Folha de São Paulo, "Detidos em Londres incluem criança e classe A", onde, nesta reportagem, citam o caso de que, entre os presos há pessoas de 11 a 46 anos (caramba, criminoso comum de 11 anos?) e contam ainda o caso de Laura Johnson, pega com produtos saqueados dentro de seu carro. Porém, um detalhe: Laura estudou nas melhores escolas do país, teve ótimas notas e frequenta cursos de inglês e italiano na prestigiosa Universidade de Exeter (pelo jeito lá os criminosos comuns são muito chiques, não?).
Uma vez que as manifestações ocorreram, o Estado precisa tomar algumas medidas para garantir a tranquilidade às ruas e olhem o que achei a respeito:
Medidas anunciadas pelo Governo:
Possibilidade de suspender a comunicação via redes sociais quando usadas para organizar atos de violência;
Toques de recolher;
Ampliação dos poderes da polícia para remover máscaras de manifestantes.
Uau, dirigentes de países, tais como Síria, China, Líbia, dentre outros devem estar vibrando com isto. Mas, estas medidas não vieram de lá? Não, se viesse de lá, o mundo ocidental reagiria contra a liberdade de expressão e manifestação. Onde já se viu limitar internet e redes sociais? Toque de recolher? Isto é ditadura. Não deixar manifestações onde os manifestantes tentem não se identificar com medo de repressão? Isto é um absurdo.
Pois bem senhores, estas medidas foram anunciadas pelo primeiro-ministro britânico David Cameron.
Será que temos dois pesos e duas medidas para manifestações, manifestantes e reações governamentais pelo mundo? De minha parte, espero que estas medidas, principalmente a primeira e a terceira, não passem de alucinações e devaneios em momentos de desespero. Para o bem da liberdade de expressão no mundo democrático.
A propósito, sou totalmente contra este tipo de manifestação onde a ordem é destruir e vandalizar, mas também acho que acima disto está o direito de livre manifestação e expressão e, se dermos o poder para o Estado determinar se posso usar um capuz, chapéu, boné ou o que quer que seja, se posso andar na rua com um grupo de amigos ou não e decidir se o que posto na internet para organizar um ato ou manifestação será pacífica ou não, estaremos abrindo as portas para legitimação de regimes não democráticos, me fazendo inclusive lembrar do célebre Big Brother, não o BBB, mas sim um personagem fictício, presente no espetacular 1984, grande obra de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu pseudônimo George Orwell.
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