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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Revisão de quota de enchente - o caso de Blumenau-SC


O sistema de cota de enchente foi criado após as enchentes de 1983 e 1984 e consiste no mapeamento das ruas da cidade e na determinação do nível de águas suficiente para alagar as ruas. Por exemplo, onde moro, a cota de enchente é de 10 metros, ou seja, quando o rio Itajaí-Açu chega a 10 metros acima do seu nível normal, a água chega à rua.
Apesar do sistema funcionar muito bem, principalmente graças à parceria, ainda na década de 80, do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica - DNAEE com a Universidade Regional de Blumenau - FURB, criando o Ceops Centro de Operação do Sistema de Alerta da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí-Açú, o sistema está com 30 anos de idade e a realidade atual é outra, por mudanças no perfil demográfico da cidade. Prédios foram erguidos onde antigamente havia terrenos baldios ou casas térreas, ruas foram asfaltadas etc.
Isto fez com que a permeabilidade do solo fosse alterada, com cimento e concreto onde antigamente havia terra e vegetação e os reflexos foram sentidos na enchente de setembro deste ano, quando o nível do rio atingiu algumas ruas com até um metro antes do esperado. Pode parecer pouco, mas a população confia tanto no sistema que esta defasagem de um metro (mais ou menos 3 horas) fez com que muitos moradores fossem pegos de surpresa.
Em virtude disto, a revisão das cotas de enchente mostra-se necessária e urgente e será feita pela FURB, em um trabalho conjunto do Ceops, do curso de engenharia civil e da população em geral. Envolverá o mapeamento de 20 pontos nevrálgicos do sistema que possibilitará a revisão das cotas. Em uma primeira fase, o mapeamente será feito observando o nível da enchente do mês passado, até 12,80 metros e, em uma segunda fase, a revisão completa das cotas. A participação da população será fundamental, pois para que o mapeamento seja executado da melhor forma possível será necessário que os técnicos examinem até onde as águas chegaram em setembro deste ano, e assim determinar a nova cota com exatidão.
Esta revisão de cotas proporcionará uma confiança ainda maior no sistema de prevenção de enchentes, melhorando o nível de exatidão das informações prestadas para população, minimizando os danos materiais e, mais importante do que isto, reduzindo ao mínimo as perdas humanas.
Se este exemplo fosse espalhando pelo país, principalmente em cidades localizadas às margens de rios suscetíveis a inundações, haveria uma redução de danos e a convivência ser humano natureza seria mais harmônica. 

sábado, 1 de outubro de 2011

Lições de mais uma enchente em Santa Catarina


Neste mês de setembro de 2011, houve mais uma enchente na região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, com saldo foi de 264 deslizamentos, 930 mil pessoas atingidas, 26 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas e apenas seis mortes.
Os prejuízos materiais foram muito grandes, mas, poderia ser muito maior, visto que muitos moradores conseguiram levar seus pertences a um lugar seguro. Ressalta-se também o número de mortes proporcionalmente pequeno ao total de pessoas atingidas.
Depois da tragédia de 2008, a cidade mapeou os pontos mais suscetíveis a deslizamentos e, dos 264 deslizamentos desta enchente, 161 deles foram em locais já previstos, o que minimizou e muito a perda de vidas humanas e bens materiais.
Entretanto, nesta enchente o problema maior foram as águas, com o rio subindo 12,50m acima do seu nível normal (dois metros acima da tragédia de 2008), porém sem maiores danos. Isto se deveu a três grandes ações tomadas depois das enchentes da década de 80 (1983 e 1984).
A instalação de um sistema de barragens no Rio Itajaí Açu, o que permite que o rio suba três metros a menos do que se o sistema não existisse. Isto ameniza as cheias do rio.
Implantação de um sistema denominado de cotas de enchente. Equipes de especialistas mapearam as ruas da cidade e foi elaborado um documento que informa quando o rio atingirá cada rua da cidade. Por exemplo, a rua onde moro inunda quando o rio chega a 10 metros acima do seu nível normal. Este documento é público e encontra-se no http://www.blumenau.sc.gov.br/defesa/cotas1.asp? e praticamente todos da cidade sabem a a cota de enchente da sua rua. Além disto, em períodos de enchente, isto é amplamente divulgado pelas TVs e rádios locais.
Finalmente, foi criado, em parceria com a Universidade Regional de Blumenau, um centro chamado Ceops, Centro de Operação do Sistema de Alerta da Bacia do Itajaí, (http://ceops.furb.br/) que tem como função monitorar e, principalmente, prever o nível do rio com base em dados meteorológicos.
Nesta enchente de setembro, todo o sistema funcionou perfeitamente. Na quarta-feira o Ceops já comunicou que a cidade seria inundada na quinta-feira no final da tarde, permanecendo em estado crítico até o final da semana. Este pequeno aviso já acionou todo o sistema de alerta contra enchentes, com a abertura dos abrigos para os possíveis afetados pelas águas (o abrigo do bairro também é algo que todos os moradores conhecem), rádios e TVs locais com coberturas ao vivo, cancelamento de aulas para diminuir o trânsito na cidade, alerta para a população tirar seus pertences de valor das partes baixas de suas casas, alerta para os lojistas guardarem seus estoques em locais seguros etc. Isto fez com que o prejuízo não existisse? É óbvio que não, porém, com certeza foi amenizado.
Enfim, um bom sistema de monitoramento, prevenção e informação, aliado ao treinamento da população local contra catástrofes pode ajudar o ser humano a conviver mais em harmonia com a mãe natureza, minimizando o risco de perdas econômicas e, principalmente, de vidas humanas.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Tecnologia na prevenção de desastres ambientais - ainda precisamos de ajustes - o caso de Blumenau - SC

As chuvas dos últimos dias provocou algo que os blumenauenses já aprenderam a conviver. O rio Itajaí-Açu subiu mais uma vez. Nada que provocasse pânico, visto que o rio chegou a apenas 6,70 metros, cerca de 1,30 metros a menos do que o nível preocupante para enchentes, mas ainda assim, mais de 5 metros acima do seu nível normal.
Desde as grandes enchentes da década de 80, os municípios do Médio Vale do Itajaí começaram a estudar mais profundamente a Bacia do Rio Itajaí-Açu e produziram mecanismos para lidar com este fato recorrente desde o início da colonização do local ainda no século. Estações de medições do nível do rio, além de barragens para controle da vazão de água em situações de crise foram instaladas em toda a região.
O sistema, praticamente manual, operava por meio de réguas onde técnicos fazem a medição e informam a central de controle, e até hoje funciona bem, mas a sua modernização e automação mostravam-se necessárias.
Foi então implantado o Centro de Operação do Sistema de Alerta (Ceops) com um sistema de telemetria, no qual o nível do rio é medido automaticamente e os dados enviados, de maneira remota, de hora em hora para a central, localizada no Campus I da Universidade Regional de Blumenau – FURB. Então, eis que assim que o nível do rio voltou a baixar depois das chuvas do final de semana, constatou-se que o sistema funciona bem, porém, é incapaz de enviar os dados das medições para a central. É como se tivéssemos uma TV extremamente moderna, com tecnologia 3D e tudo o mais, mas que só conseguisse receber imagens em preto e branco e sem das emissoras.
Fico então indignado e até perplexo com as razões alegadas para isto: má recepção de sinal de telefonia móvel nas estações localizadas dentro dos perímetros urbanos e falta completa de sinal nas estações fora das cidades. A solução encontrada é um funcionário ir ao local e descarregar manualmente os dados, exatamente como era feito no antigo sistema de réguas.
E então fico com algumas perguntas que assolam minha diminuta capacidade de compreensão dos fatos: será que os técnicos não viram que havia má recepção de sinal de celular onde os transmissores foram localizados? Será que não haveria a possibilidade da instalação em outro local? E por que a transmissão não é feita via satélite? A explicação para isto é que há a necessidade de contratação de uma empresa para fazer a transmissão dos dados via satélite e que o Ceops pretende trocar a operadora que faz a transmissão onde o sinal de celular é fraco. Será que só descobriram isto esta semana?
Enfim, a impressão que tenho é que a cidade de Blumenau construiu uma Ferrari, mas ainda continuamos na era das boas e velhas Toyotas Bandeirante, um veículo amplamente utilizado na zona rural no século passado.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Mensagem de solidariedade aos moradores da Região Serrana do Rio de Janeiro

Vejo com muita tristeza o desastre natural que se abateu na região serrana do Rio de Janeiro nestes dias. Moro em Blumenau-SC a 5 anos e gostaria de partilhar a experiência que tive com a tragédia ocorrida por aqui no ano de 2008.

Na época, a região onde moro foi uma das menos atingidas na cidade. Mesmo assim, tive água na garagem do edifício onde moro, fiquei sem luz por três dias e sem água por oito dias. A sensação de impotência é terrível e só passando por uma situação desta que é possível entender a real dimensão deste sentimento.

Pessoal da região serrana do Rio de Janeiro, vocês devem estar se sentindo meio perdidos. A água está parando de subir e agora o que fazer? Primeiro, vocês vão sentir pânico a cada vez que o céu virar para chuva. Provavelmente este sentimento vai durar meses, não se preocupem, isto é absolutamente normal. Além disto, a primeira sensação que temos é ficar revoltado com o poder público, que o Estado precisa fazer algo. Entretanto, depois a gente percebe que a reconstrução depende dos cidadãos, dos moradores das cidades. Uma das razões para a cidade de Blumenau ter se reerguido de forma rápida (3 dias depois do início das cheias, com a cidade ainda sem água e boa parte dela sem luz, o comércio já estava 80% funcionando) foi a mobilização popular e das empresas locais no processo de limpeza e reconstrução. Era comum ver caçambas e tratores privados limpando as ruas e trabalhando independente do poder público, pois, é muito mais barato para a cidade como um todo se mobilizar para fazer por conta própria do que ficar com a economia paralisada esperando ajuda governamental.

E a sensação de perda é terrível. Mesmo quem não perdeu a casa ou familiares, tem amigos que perderam vidas, que perderam tudo o que possuem. E um problema horrível é que muita gente perde não só a casa, mas o terreno também. E a explicação é simples. Se um morro desaba, os terrenos mais altos simplesmente desaparecem, visto que o seu terreno caiu e a sua terra se foi.

Outro ponto a ser tratado é a falta de água e luz. Até então, eu imaginava que viver sem luz seria terrível. Porém, viver sem luz é algo fácil, quando se tem água. Viver sem água é a pior coisa do mundo. E não falo aqui de água para beber, mas sim de água para uso. Esta foi uma das piores sensações que tive durante a tragédia. Já imaginaram não poder lavar a louça de casa? E tomar banho? E dar descarga no seu banheiro? Em 2008 a falta de água foi anunciada pela prefeitura. No primeiro dia de enchente, as tubulações se romperam e a prefeitura anunciou que antes de 8 dias, a cidade toda ficaria sem água. Então, como usar o banheiro se não vou poder dar descarga? Isto te dá uma sensação de falta de higiene e você começa a ter que controlar as suas próprias necessidades fisiológicas.

Finalmente, um ponto a ser tratado. Uma das coisas que eu me assustei, desta vez pelo lado positivo, foi a grande preparação da Defesa Civil e da própria população. Quando a água começou a subir, a cidade já sabia para qual abrigo ir (cada bairro já possui o seu), onde levar donativos, quais ruas estariam alagadas, quais ruas teriam o sentido invertido para escoar o trânsito etc. E isto aconteceu aqui porque a região é propensa a enchentes, assim como a região serrana do Rio de Janeiro. Desde o início da colonização da região de Blumenau, a 160 anos, ocorrem grandes enchentes a cada 20 anos, em média, e enxurradas de forma praticamente anual. Uma boa Defesa Civil, com uma coordenação entre o poder público, empresas, associações de bairros, bombeiros, exército etc ajuda muito a minimizar os problemas.

Para encerrar, quero expressar todas as minhas condolências à população fluminense e que Deus abençoe esta terra tão linda e conforte a todos.
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